( Resenha ) À Sombra da Figueira de Vaddey Ratner @geracaobooks

Geração Editoral

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Resenha

- Restarão poucos de nós descansando à sombra da figueira-de-bengala - a Rainha Avó murmurou de novo, e eu não entendia por que as pessoas loucas sempre sentiam necessidade de dizer a mesma coisa duas vezes.- A luta vai continuar. O único lugar seguro é aqui, debaixo da figueira-de-bengala.


Este lindo livro vai contar a história de Raami, uma garotinha de 7 anos que teve poliomielite e portanto tem algumas limitações para andar. Filha do príncipe Tigre, da realeza cambojana, narra os acontecimentos de um dos períodos mais obscuros do Caboja, a ditadura de 1975, onde os Khmer Vermelho tenta transformar o país em um modelo comunista agrário. 


Ela e sua família viviam em uma bela casa, com funcionários que auxiliavam em diversas atividades diárias. A garotinha e sua irmã mais nova, Radana, não tinham nenhuma preocupação ou privação. Brincavam e aprendiam pequenas coisas durante o dia.

Um jovem pai passou carregando um filho nas costas e outro na frente, e no resto do corpo os fardos e itens necessários: comida, utensílios de cozinha, colchonetes, travesseiros, cobertores. Sua mulher, com uma criança no colo e outra a caminho, segurava forte o braço dele enquanto seguiam pela rua movimentada. Um adolescente passou por eles segurando com as mãos seu estômago, que sangrava, enquanto tentava procurar ajuda. Nenhuma ajuda apareceu. Eu via um milhão de rostos de uma vez, e todos eram iguais. Assustados. Perdidos.

Porém um dia a revolução chegou no Camboja, "soldados" revolucionários invadem a casa e mandam todos se retirarem o mais rápido possível. Levem somente o necessário, dizia ele, vocês devem deixar este local imediatamente.

Pegaram o que conseguiram carregar e os membros da família real entraram no carro em direção ao ponto de encontro. O pai de Raami tinha um local marcado para se caso algo acontecesse, a família permanecesse unida.

Os membros da família cada qual com sua personalidade e características fornecem algum aprendizado para a jovem garota. Nesse momento de total conturbação muitas lições são aprendidas.

Mais uma vez vi o rosto do soldado do Khmer Vermelho que havia apontado a arma para a cabeça do velho. Ocorreu-me que a expressão de seu rosto quando atirara no velho, ao vê-lo cair no chão, não tinha nome. Não era raiva, nem ódio, nem medo. Aquilo era vazio de raiva ou de qualquer coisa reconhecível, lembrei que pensara que ele não parecia criança nem adulto, mas uma espécie de criatura real só para ele, não totalmente irreal, assim como um monstro de pesadelo não é irreal.

Logo todos são cercados pelos revolucionários e encaminhados para locais onde deveriam ficar reunidos. Violência, fome, doenças, tristeza, trabalho forçado, humilhação e cansaço são algumas das experiências que os prisioneiros tiveram que enfrentar.

A jovem é muito ligada ao seu pai, o qual utiliza das histórias para confortar a criança e também como fuga para que não sucumbam ao completo estresse psicológico.

- Talvez seja natural para um pai, para todos os pais, ver em seu filho tudo o que é bom e intocado. Mas se puder, Raami, quero que veja isso em si mesma. Não importa quanta feiura e destruição testemunhe ao seu redor, quero que sempre acredite que o menor vislumbre de beleza aqui e ali é um reflexo da morada dos deuses. Isso é real, Raami. Existe esse lugar, esse espaço sagrado. Você só precisa imaginar, atrever-se a sonhar. Está dentro de você, dentro de todos nós.

No decorrer do livro podemos ver como estas situações extremas fazem com que a jovem amadureça e com a história narrada por ela, compartilhamos as experiências vividas nesse período de terror. Diversas vezes eu me esquecia do quão jovem era o narrador, mas sei que o crescimento é acelerado quando as crianças são privadas de sua infância e vivenciam coisas que eu, 3 vezes mais velha que ela, não enfrentei e espero nunca enfrentar.

Mesmo em momentos assim podemos presenciar momentos de amor, alegria momentânea e estar com a família fortalece as pessoas, bem como lutar para encontrar um ente querido nos dá forças quando somos forçados a nos separar.

Eu tinha quase certeza de que havia ficado muito mais velha, e nos últimos meses começara a considerar o reflexo da menina que às vezes via na superfície da água como uma espécie de duende, um fantasma da ingenuidade passando sob meu olhar antes de desaparecer nas ondulações.

Particularmente gosto de livros que envolvem revoluções e guerras, o contato com as terríveis coisas acontecidas no passado faz com que fiquemos de olhos abertos sobre o quão cruel o ser humano pode ser. E mais, para que sempre conteste os motivos que levam uma pessoa a querer impor ações drásticas para um "futuro" melhor. Sempre devemos utilizar do nosso senso crítico e avaliar o que é dito e incentivado na sociedade. Assim como as ações, as palavras também levam a consequências e muitas vezes finais terríveis.

- É possível não ser simpático à sua causa? - Perguntou papai, com voz hesitante. - Aos ideais pelos quais estão lutando?- E qual é essa causa? Não sabemos não é? Tenho certeza de que nem essas crianças sabem. Quanto aos "ideais", não creio que eles sequer saibam o que a palavra significa. 
Manter você não é vantagem, matá-la não é perda. Sob as regras da Organização, fomos reduzidos a esse ditado. Como eu poderia viver por essas palavras? Com tantos levados embora por pretensões menores, como poderia qualquer criança acreditar que viveria além desse dia, desse momento? Como poderia esperar o amanhã? Em um mundo de morte sem sentido, não podia compreender o significado. Se esse era nosso carma coletivo, por que eu ainda estava viva? Eu era tão culpada quanto os que sobreviveram, e tão inocente quanto os que morreram. 

Este é o romance de estreia da autora, que tem uma bela história assim como a protagonista da obra. Vaddey Ratner tinha cinco anos quando o Khmer Vermelho assumiu o poder, em 1975. Depois de quatro anos de trabalhos forçados, fome e risco de execução, ela e sua mãe fugiram enquanto muitos membros de sua família morreram. 

Visite seu site em www.vaddeyratner.com.




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